No mapa do estado de Washington existe um enclave que parece erro de impressão: Point Roberts, uma península de 12,7 km² grudada no Canadá e separada do resto dos Estados Unidos pelo mar. Para chegar lá de carro a partir dos EUA, são cerca de 40 quilômetros dirigindo pela Colúmbia Britânica — com passaporte na mão, porque o caminho cruza duas fronteiras internacionais. Sem passar pelo Canadá, só de barco ou avião particular.
A culpa é de um detalhe do Tratado do Oregon, de 15 de junho de 1846, que fixou a fronteira entre os EUA e o território britânico no paralelo 49. A pontinha da península de Tsawwassen ficou ao sul da linha — e coube aos americanos. Os negociadores só perceberam a esquisitice quando a comissão de fronteira mapeou a região, segundo a Biblioteca do Congresso. O “erro” nunca foi corrigido.
Hoje vivem ali 1.191 pessoas (censo de 2020) numa rotina única: a escola local vai só até a 3ª série — a partir da 4ª, as crianças pegam ônibus até Blaine, Washington, cruzando a fronteira internacional quatro vezes por dia. Quando a fronteira fechou na pandemia, em 2020 e 2021, a comunidade ficou meses praticamente ilhada, dependendo de barco e balsa para receber suprimentos. Em compensação, a entrada controlada por posto de fronteira faz de Point Roberts um dos cantos com menor criminalidade do país.
Para o brasileiro da região de Seattle, é um passeio de fim de semana surreal: praia americana com cara de vila, acessível via Vancouver. Só não esqueça o documento — sem passaporte válido (e a autorização canadense, quando exigida), não se entra nem se sai de carro desse pedaço dos Estados Unidos.