O governo dos Estados Unidos confirmou, na noite de 15 de julho, uma tarifa adicional de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros, com entrada em vigor às 0h01 de 22 de julho. A medida encerra uma investigação de um ano conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — o mesmo instrumento legal usado nos últimos anos contra a China.
Para quem vive nos Estados Unidos e mantém negócio, remessas ou vínculo comercial com o Brasil, a tarifa chega em um momento de tensão crescente entre os dois países e se soma a outra frente de atrito: a pausa nos vistos de imigrante anunciada em janeiro. Juntas, as duas medidas desenham um quadro de relação bilateral mais dura, com efeitos que vão do preço de produtos brasileiros nas prateleiras americanas ao clima político que cerca qualquer negociação futura.
O que motivou a tarifa.
A investigação do USTR, aberta em julho de 2025, concluiu que políticas brasileiras prejudicam seis frentes do comércio americano. Duas concentraram a maior parte das reclamações: o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, e as regras de acesso ao mercado brasileiro de etanol.
Do lado do etanol, produtores americanos alegam que a tarifa brasileira sobre o combustível importado dos Estados Unidos é desproporcional e consideram a nova sobretaxa de 25% uma resposta justa. Do lado da tecnologia, autoridades americanas classificaram o Pix como uma ferramenta que compete de forma desleal com sistemas privados dos Estados Unidos, citando o Zelle como referência direta. O relatório final do USTR também citou barreiras ao comércio digital, questões de propriedade intelectual, tarifas preferenciais, combate à corrupção e ao desmatamento ilegal entre os pontos que sustentam a medida.
Outro fator mencionado por autoridades americanas, embora fora do escopo formal da investigação: ordens judiciais brasileiras que determinaram a remoção de conteúdo político em plataformas de tecnologia americanas, um ponto de atrito que já vinha se acumulando havia meses entre os dois governos.
O que fica de fora
A tarifa não é generalizada. O USTR manteve uma lista de exceções com cerca de 2.100 itens tarifários, que preserva os principais produtos da pauta exportadora brasileira: carne, café, laranja, suco de laranja e peças usadas na fabricação de aviões. Depois de ouvir 77 depoentes em audiências públicas realizadas nos dias 6 e 7 de julho, o governo americano ampliou essa lista de isenções, alegando que os itens excluídos são insumos importantes para a indústria dos Estados Unidos, têm pouca oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países.
Entre os produtos que efetivamente entram na nova sobretaxa estão etanol, máquinas agrícolas, vestuário, máquinas elétricas, calçados, ferramentas de jardinagem, equipamentos de mineração, papelão e açúcar orgânico. A medida respeita contratos em trânsito: mercadorias que já tiverem deixado portos e aeroportos brasileiros antes da entrada em vigor não são retroativamente taxadas.
Como o Brasil pretende reagir?
O governo brasileiro anunciou que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio contra a medida e avaliará contramedidas amparadas pela Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada no ano passado justamente para dar ao Executivo instrumentos de resposta a sanções comerciais unilaterais. Antes da confirmação da tarifa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia sinalizado a ministros que considerava a retaliação o caminho mais provável, mesmo mantendo conversas com autoridades americanas até a véspera do anúncio.
Entre as áreas cotadas para uma eventual resposta brasileira estão royalties do setor audiovisual e patentes farmacêuticas americanas — um sinal de que a disputa pode se estender para além dos produtos diretamente listados pelos Estados Unidos. A Confederação Nacional da Indústria estima que mais de quatro mil produtos exportados pelo Brasil aos EUA poderiam, em tese, ser atingidos por uma escalada da disputa, embora a lista final publicada tenha se limitado a um número bem menor de itens.
O que isso muda para quem está nos EUA.
Para o brasileiro que mora nos Estados Unidos, o efeito mais direto tende a aparecer em quem trabalha com importação de produtos brasileiros — mercadinhos, distribuidoras e lojas online que vendem itens do Brasil para a comunidade em Denver, Seattle e outras cidades. Etanol e maquinário agrícola pesam pouco no dia a dia de quem compra polvilho ou guaraná no mercado local, mas o pacote de tarifas reforça um ambiente de instabilidade comercial que historicamente pressiona o câmbio.
O dólar fechou a semana em torno de R$ 5,11 na cotação comercial, dentro de uma faixa que analistas vêm descrevendo como tensa e sem direção única para julho, oscilando entre R$ 5,15 e R$ 5,25 conforme o humor do mercado em relação aos juros americanos e à política monetária brasileira. Um ambiente de maior atrito comercial entre os dois países tende a alimentar essa volatilidade, o que afeta diretamente quem envia remessas para o Brasil ou recebe dinheiro de lá — o valor final em reais ou em dólares pode variar de forma mais brusca do que em períodos de relação bilateral estável.
Há também o pano de fundo político. O tarifaço chega poucos meses depois da pausa nos vistos de imigrante para 75 países, incluindo o Brasil, e se soma a atritos anteriores ligados ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro nos tribunais brasileiros — episódio que a Casa Branca já citou publicamente como motivação para tarifas passadas contra o país. Para famílias com processos de imigração em andamento ou negócios binacionais, a lição prática é a mesma: acompanhar o noticiário de perto, porque a relação entre Brasília e Washington segue em um momento de definição, com decisões que podem mudar de um mês para o outro.
Os canais de negociação continuam abertos.
Apesar do tom de confronto, autoridades americanas afirmam que os canais de diálogo não foram fechados. Brasil e Estados Unidos já realizaram cinco reuniões de alto nível desde a criação de um grupo de trabalho bilateral em maio, e o governo brasileiro segue tentando negociar a inclusão de mais produtos estratégicos na lista de exceções. Nenhuma das duas partes, até o momento, sinalizou disposição de suspender a tarifa antes de sua entrada em vigor em 22 de julho.
Onde confirmar:
- Jornal Grande Bahia — cobertura da decisão do USTR e cronologia da investigação (jornalgrandebahia.com.br)
- Notícias ao Minuto Brasil — lista de exceções e reação do governo brasileiro (noticiasaominuto.com.br)
- CLM Brasil — detalhamento dos produtos taxados e base legal da Seção 301 (clmbrasil.com.br)
- EBC Financial Group — previsão e faixa de cotação do dólar para julho de 2026 (ebc.com)
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