O surto de Ebola na República Democrática do Congo chegou a 1.561 casos e 506 mortes, segundo balanço de 6 de julho, e a resposta ao maior surto da história do país corre risco de parar: agentes de saúde da linha de frente na província de Ituri anunciaram greve alegando que não recebem salários e benefícios desde o início da emergência, além de faltar equipamento de proteção e insumos.
Para o imigrante nos Estados Unidos, o assunto não é distante. Desde maio, uma ordem federal barra a entrada no país de estrangeiros que tenham passado pelo Congo, por Uganda ou pelo Sudão do Sul nos 21 dias anteriores — e a regra alcança inclusive portadores de green card desses países.
Um vírus diferente do de 2014
O surto foi declarado em 15 de maio e é causado pela cepa Bundibugyo, mais rara. Dos 16 surtos anteriores do Congo, a maioria foi da cepa Zaire, a mais comum e a que tem vacina e tratamento aprovados. Para a Bundibugyo não existe vacina nem terapia aprovada: o cuidado é de suporte. Terapias experimentais, como o antiviral remdesivir e o anticorpo MBP134, começaram a ser testadas.
O epicentro é Ituri, no leste do país, com transmissão também em Nord-Kivu e Sud-Kivu. A cidade mais atingida é Bunia. Em meados de junho, o balanço era de 837 casos e 196 mortes — em três semanas o número de mortos mais que dobrou. Uganda registrou cerca de 19 casos e 2 mortes.
A Organização Mundial da Saúde incluiu o primeiro teste diagnóstico para a cepa Bundibugyo na sua lista de uso emergencial, e a capacidade de testagem subiu de 200 a 400 exames por dia para mais de 2 mil, em cerca de dez laboratórios. "Durante um surto em rápida evolução, o acesso oportuno a testes de qualidade garantida pode fazer uma diferença crítica para conter a transmissão", disse Yukiko Nakatani, subdiretora-geral da OMS.
A regra americana de entrada
Em 18 de maio, o CDC emitiu ordem suspendendo a entrada de estrangeiros que estiveram na República Democrática do Congo, em Uganda ou no Sudão do Sul nos 21 dias anteriores. A ordem foi renovada em 21 de junho por mais 30 dias. Cidadãos americanos, militares e casos com exceção concedida pelo DHS estão fora da restrição.
Quem está autorizado a entrar e passou por esses países nesse intervalo precisa desembarcar em um de quatro aeroportos designados, com triagem reforçada:
- Washington Dulles (IAD)
- Atlanta Hartsfield-Jackson (ATL)
- George Bush Intercontinental, em Houston (IAH)
- John F. Kennedy, em Nova York (JFK)
A triagem inclui questionário de saúde, avaliação de sintomas e exame presencial. O viajante deve monitorar sintomas por 21 dias depois de deixar a região — o período de incubação do vírus vai de 2 a 21 dias. O aviso de viagem do CDC para Ituri, Nord-Kivu e Sud-Kivu está em Nível 3, que recomenda reconsiderar viagens não essenciais.
Nem todo especialista vê eficácia na barreira. "Proibições amplas de viagem pouco fazem para deter a disseminação de uma doença depois que os surtos já estão em curso", disse a infectologista Krutika Kuppalli, ex-OMS.
Um paciente americano
Um médico americano, Peter Stafford, que trabalhava desde 2023 em um hospital em Bunia por uma organização religiosa, testou positivo para a cepa Bundibugyo e foi transferido para a Alemanha. Familiares e um colega foram levados para observação. Até agora, não há nenhum caso de Ebola adquirido dentro dos Estados Unidos.
"Estamos trabalhando em toda a agência para garantir que os tratamentos apropriados estejam disponíveis", disse Satish Pillai, gerente da resposta ao Ebola no CDC.
O que isso muda para quem viaja
Quem tem viagem marcada com escala ou trecho por esses três países africanos deve checar a validade da ordem antes de embarcar, porque ela vem sendo renovada de 30 em 30 dias, e confirmar com a companhia aérea o aeroporto de entrada nos Estados Unidos. Ter green card não isenta da restrição.
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