O reverendo Edward Nalwamba, de 78 anos, padre anglicano que viveu mais de duas décadas na área metropolitana de Denver, está preso no centro de detenção do ICE em Aurora e tem a deportação para Uganda marcada para terça-feira, 30 de junho. O Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) planeja transferi-lo para fora do Colorado já nesta segunda-feira, 29, segundo o noticiário local.
Nalwamba serviu por cerca de 15 anos na Resurrection Anglican Fellowship, em Greenwood Village, no sul da região metropolitana de Denver, e se aposentou há cerca de dois anos. Antes de ser preso pelo ICE em setembro de 2025, ele trabalhava em tempo integral cuidando de uma pessoa com deficiência intelectual, morava na casa da família e a levava à igreja com regularidade.
Um juiz federal negou na terça-feira anterior o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa. O habeas é o instrumento que contesta uma detenção considerada ilegal, e costuma ser concedido quando a deportação não tem data próxima para acontecer. Como o ICE marcou a remoção de Nalwamba para 30 de junho, o juiz entendeu que a detenção não era indefinida e indeferiu o pedido.
De onde vem a ordem de deportação
Nalwamba entrou nos Estados Unidos em janeiro de 2002, com visto de turista B2, válido por seis meses, para participar de um evento religioso. Ele permaneceu no país depois do vencimento do visto. Em depoimentos a tribunais de imigração, afirmou que havia condenado publicamente abusos de direitos humanos cometidos pelo governo de Uganda, e que colegas o alertaram de que sua vida correria perigo caso voltasse, porque agentes do governo o procuravam.
O pedido de asilo foi negado. Um juiz de imigração concedeu saída voluntária em março de 2007, e a Junta de Apelações de Imigração (BIA) rejeitou o recurso em junho de 2009. A ordem final de remoção foi emitida em abril de 2010. À época, Nalwamba chegou a ser detido e ficou meses sob custódia antes de ser liberado com uma "ordem de supervisão", situação em que a pessoa tem ordem de deportação, mas não é removida de imediato e precisa se apresentar periodicamente ao ICE.
Essa situação se manteve por mais de uma década, até a prisão em setembro de 2025. O caso ilustra um ponto que advogados de imigração repetem à comunidade: uma ordem de remoção antiga não desaparece com o tempo. Ela pode permanecer dormente por anos e ser reativada, e a pessoa pode ser detida mesmo cumprindo todas as exigências de comparecimento.
Estado de saúde durante a detenção
Nalwamba está há cerca de nove meses no centro de detenção operado pela GEO Group sob contrato com o ICE, em Aurora, a maior estrutura desse tipo na região da Front Range. Segundo seus advogados, ele perdeu mais de 30 quilos no período, contraiu pneumonia e outras doenças respiratórias e passou a depender de cadeira de rodas.
O centro de Aurora concentra a maior parte dos imigrantes detidos no metrô de Denver e ao longo da Front Range. Relatos sobre as condições no local, incluindo alimentação e atendimento, são objeto de disputa pública e de inspeções estaduais previstas em lei aprovada no Colorado em 2026.
O que a defesa está tentando
Os advogados de Nalwamba apresentaram um pedido de suspensão de emergência da remoção (stay of removal) e uma moção para reabrir o caso de asilo junto à Junta de Apelações de Imigração, alegando que as condições em Uganda pioraram e aumentam o risco para ele. O advogado David N. Simmons representa o reverendo.
O Departamento de Estado dos EUA mantém alerta de viagem de nível 4, o mais alto, para Uganda, recomendando que cidadãos e residentes americanos não viajem ao país. O nível 4 foi acionado em maio de 2026 por causa de um surto de Ebola, somado a riscos já existentes de criminalidade, terrorismo e a lei antigay de 2023, que criminaliza relações entre pessoas do mesmo sexo e se aplica também a visitantes.
Mobilização da comunidade
A congregação e amigos de Nalwamba realizaram uma vigília de oração no dia 27 de junho, às 16h, em frente ao centro de processamento do ICE em Aurora, no endereço 3130 Oakland St. Organizadores descreveram o ato como momento de oração, não de protesto, e pediram que os participantes não levassem cartazes.
"Ele é a pessoa mais devota que já conheci. Não bebe, nunca", disse Steve Rider, conhecido do reverendo, em entrevista à imprensa local.
O que isso significa para o imigrante em Denver
O caso traz lições práticas para brasileiros e outros imigrantes na região. Uma ordem de remoção final continua válida indefinidamente, mesmo que a pessoa permaneça anos no país sob ordem de supervisão. Manter comprovantes de comparecimento ao ICE e ter um advogado de confiança não impede a detenção, mas pode ser decisivo para acionar recursos rápidos quando ela ocorre.
Diante de uma detenção com deportação marcada, os caminhos legais mais usados são a suspensão de emergência da remoção, a moção para reabrir o caso de asilo com base em mudança de condições no país de origem e o pedido de habeas corpus. Cada um tem prazos curtos, o que torna o contato imediato com um advogado de imigração o passo mais urgente. Organizações como a Rocky Mountain Immigrant Advocacy Network (RMIAN) prestam apoio a detidos na região e a suas famílias.
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