O Itamaraty enviou em 28 de julho uma circular a embaixadas e consulados na Europa e nos Estados Unidos com uma ordem incômoda: desacelerar os agendamentos diários de renovação de passaporte e imprimir apenas documentos considerados "essenciais e de emergência". O motivo, segundo a Coluna do Estadão, que revelou o teor da circular, é falta de verba para o material de confecção dos documentos.
Em nota citada pela Panrotas, o ministério confirmou o aperto: "A demanda por passaportes no exterior superou a previsão orçamentária destinada à aquisição do material utilizado na confecção dos documentos".
Demanda recorde.
O freio chega no pior momento possível. No primeiro semestre de 2026, os postos no exterior emitiram 188.928 documentos de viagem, alta de 26% sobre o mesmo período de 2025. Julho registrou mais de 33 mil pedidos, o maior volume mensal da história do serviço consular, segundo a Panrotas. Em 2025, o ano inteiro havia fechado com 274 mil passaportes emitidos fora do Brasil, 40% acima de 2024.
Parte da explosão de demanda tem explicação simples: ficou mais barato. Desde 1º de junho, a taxa do passaporte emitido no exterior caiu cerca de 50%, aproximando-se do valor cobrado no Brasil, por força de uma portaria do Itamaraty publicada em abril. O barateamento, comemorado pela comunidade, ajudou a lotar as agendas dos consulados — e a esvaziar o orçamento do material.
O passaporte não sai mais na hora.
Junto com o freio nos agendamentos, mudou a logística de entrega. Desde 30 de julho, os passaportes deixaram de ser impressos e entregues no próprio posto consular. A produção passou para a Casa da Moeda do Brasil, com envio posterior por correio ou retirada no consulado. O Consulado-Geral em Miami foi o primeiro a operar no novo modelo, segundo a Panrotas e o portal Nossa Gente, que atende à comunidade brasileira na Flórida.
O Nossa Gente cita prazo estimado de cerca de 6 dias úteis de produção após o processamento do pedido — sem contar o tempo de envio até a casa do solicitante ou de volta ao consulado. Ou seja: mesmo quem consegue agendamento deve esperar mais para ter o documento em mãos.
Mal-estar entre diplomatas.
A ordem não desceu bem no próprio corpo diplomático. Diplomatas ouvidos pela Coluna do Estadão classificaram as orientações como "absurdas" e lembraram que a emissão de passaporte não é "um luxo", mas um serviço pago, usado pelo cidadão quando necessário.
O que fazer se você precisa renovar
Para o brasileiro nos EUA, o recado prático se resume a três pontos:
- Não deixe para a última hora. Com agendamentos desacelerados e produção centralizada no Brasil, o prazo total tende a esticar. Quem tem viagem marcada ou processo que exige passaporte válido deve iniciar a renovação com meses de antecedência.
- Emergências continuam atendidas. A circular manda priorizar exatamente os documentos de emergência — casos de doença, morte ou viagem urgente seguem tendo canal nos consulados.
- Confira as regras do seu consulado. A mudança de logística começou por Miami e deve se estender aos demais postos; os sites dos consulados de cada jurisdição publicam o procedimento válido para a região.
O Itamaraty não anunciou prazo para normalizar o ritmo de emissão. Enquanto a verba adicional não sai, a fila — que já batia recorde — deve andar mais devagar.
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