Um venezuelano deportado pelos Estados Unidos morreu em um dos terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho, um dia depois de chegar ao país. O caso, revelado pela CNN em 17 de julho, deu rosto a uma tragédia que já preocupava organizações de direitos humanos: parte das pessoas retiradas dos EUA em um voo de deportação foi levada para uma área que horas mais tarde seria devastada.
O voo saiu de Miami e pousou no aeroporto internacional Simón Bolívar às 10h22 do horário local, na manhã de 24 de junho, segundo a NPR. A bordo estavam 146 pessoas, entre elas 19 mulheres e sete crianças. O grupo foi conduzido a um hotel administrado pelo governo na cidade litorânea de La Guaira, ao norte de Caracas. Ainda naquele dia, os dois tremores atingiram a região. A agência venezuelana responsável pelo transporte dos deportados não informou à NPR quantos sobreviveram, e familiares passaram dias em busca de notícias.
No relato à CNN, uma mãe contou ter reconhecido o corpo do filho por uma tatuagem que ele havia feito anos antes. Segundo a reportagem, o rapaz estava sob custódia da imigração americana e assinou papéis de saída voluntária, pressionado a se autodeportar. Ele chegou à Venezuela justamente em 24 de junho, o dia do desastre.
Os dois terremotos ocorreram com poucos segundos de diferença, no fim da tarde, com magnitudes de 7,2 e 7,5. La Guaira foi um dos pontos mais castigados, com grande parte das construções derrubadas, e Caracas também registrou destruição. O número de mortos subiu ao longo dos dias: a ONU contabilizava mais de 1.700 vítimas no fim de junho, e o governo venezuelano informou, em 9 de julho, mais de 3.800 mortos, milhares de feridos e dezenas de milhares de desaparecidos. As cifras ainda variam conforme avançam as buscas.
Deportações seguem apesar do desastre.
A tragédia expôs uma coincidência que virou controvérsia política. Em 25 de junho, um dia após os tremores, a Suprema Corte dos EUA abriu caminho para o governo Trump avançar na deportação de venezuelanos, ao permitir o fim de proteções que abrigavam esse grupo. A decisão alcança um contingente estimado em cerca de 605 mil pessoas. Desde então, voos de retorno continuaram a sair, mesmo com boa parte do país de destino em ruínas.
Ativistas, entidades de direitos humanos e parlamentares passaram a pedir que o governo americano suspenda ou adie os envios para a Venezuela enquanto durar a emergência. O argumento é direto: mandar pessoas de volta para uma zona de desastre, sem abrigo nem serviços básicos, agrava o risco de vida. O governo Trump, por sua vez, também acionou a Justiça para que a proteção temporária a venezuelanos e haitianos seja reavaliada em instâncias inferiores, o que mantém a disputa em aberto nos tribunais.
Enquanto isso, o caso dos deportados no hotel de La Guaira segue sem um balanço oficial claro. As contagens sobre quantos escaparam com vida são conflitantes, e a falta de transparência das autoridades venezuelanas dificulta o rastreamento das famílias que ainda procuram parentes.
Para o brasileiro que vive nos EUA, a história vai além da fronteira venezuelana. Ela mostra o que está em jogo quando uma proteção migratória cai. Muitos imigrantes latino-americanos, brasileiros incluídos, tocam a vida sob status precário, dependentes de decisões que podem mudar de um mês para o outro. O episódio serve de lembrete concreto: acompanhar de perto o próprio caso, guardar documentos em ordem e buscar orientação jurídica antes de assinar qualquer papel de saída deixou de ser precaução exagerada.
No campo humanitário, a ONU informou que ampliava a resposta ao desastre, com equipes de resgate e ajuda em áreas de difícil acesso. As buscas por sobreviventes se estenderam por semanas, e o número final de mortos e desaparecidos ainda deve mudar à medida que os escombros forem removidos.
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