A cena é conhecida em qualquer casa brasileira nos Estados Unidos. Chega uma carta da escola, em inglês, cheia de siglas. Ou marcam uma reunião sobre o comportamento do seu filho — e é o próprio filho, de 10 anos, que traduz para você o que a professora está dizendo sobre ele.
Isso não é normal, não é obrigação sua, e a lei diz o contrário.
O que a lei federal garante
Pela lei federal de direitos civis (Title VI), a escola pública é obrigada a comunicar as informações a pais com domínio limitado de inglês "em um idioma que eles consigam entender".
A mesma lei proíbe discriminação por causa do sotaque, do nome, do domínio limitado de inglês ou do fato de a pessoa falar outro idioma.
E vale reforçar, porque o medo persiste: pela decisão da Suprema Corte em Plyler v. Doe, "o status de cidadania ou migratório dos alunos, dos pais ou dos responsáveis não pode ser usado para barrar alunos da escola pública".
A frase que muda a reunião
A orientação oficial do estado de Washington é explícita, e vale imprimir e levar na bolsa:
"As escolas não devem depender de alunos, irmãos ou outras crianças para interpretar para os pais."
O motivo é óbvio quando se pensa dois segundos: o assunto pode ser a nota do próprio filho, uma suspensão, uma suspeita de aprendizado, uma questão de saúde. Colocar a criança no meio disso é injusto com ela e ruim para você — que recebe a informação filtrada por quem tem interesse no resultado.
O órgão estadual de defesa das famílias em Washington resume o direito: "Os pais têm o direito de receber informações importantes das escolas em um idioma que consigam entender."
O Colorado diz o mesmo
O Departamento de Educação do Colorado orienta os distritos a "comunicar-se no idioma mais facilmente compreendido pelo pai ou responsável" e a fornecer materiais traduzidos ou intérprete, sem custo para a família.
E faz um alerta importante: ter um funcionário que fala português não basta. Intérpretes e tradutores precisam ser treinados, conhecer a terminologia especializada da educação, a ética da interpretação e as regras de confidencialidade. A tia da secretaria que "se vira" não é intérprete.
Como pedir, na prática
Peça por escrito e com antecedência. Um e-mail curto para a secretaria da escola resolve. Algo assim:
"Solicito intérprete de português para a reunião do dia __. Também solicito os documentos traduzidos. Obrigado."
Guarde o e-mail. Ele é a sua prova de que pediu.
Em Seattle: o distrito oferece tradução e interpretação gratuitas. Para os idiomas de maior demanda, tem equipe própria; para os demais — o caso do português —, contrata empresas de interpretação por telefone. O contato de acesso linguístico do distrito é languages@seattleschools.org, telefone 206-743-3549. O pedido de intérprete para uma reunião deve ser feito à escola do seu filho.
O direito vale para reunião de pais e professores, educação especial (IEP), matrícula, plano 504 e processos de disciplina — justamente as conversas em que entender cada palavra faz diferença.
No Colorado: peça o intérprete por escrito à escola, invocando a orientação estadual. Se a escola resistir, suba um degrau: procure o distrito.
Quando a escola não cumpre
Em Washington, o escritório do ouvidor de educação do estado atende famílias no 1-866-297-2597, com intérprete por telefone. É um órgão público e gratuito, feito exatamente para isso.
Em ambos os estados, o descumprimento pode virar queixa no escritório de direitos civis do Departamento de Educação, por violação do Title VI.
Três frases para guardar
- "Eu preciso de intérprete de português." Você não precisa se desculpar por isso.
- "Eu não vou assinar o que eu não entendi." Assinatura sua tem peso legal. Não assine documento em inglês que você não leu traduzido.
- "Meu filho não vai traduzir esta reunião." A escola é que tem de resolver o idioma — não a sua criança.
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