Ele está no balcão do posto de gasolina, na loja de conveniência e no smoke shop, vendido em goma, comprimido, shot e adesivo que se dissolve embaixo da língua. O rótulo sugere suplemento natural, extrato de planta, algo para dar energia ou aliviar a dor nas costas depois de um dia de obra.
O que está ali dentro é um opioide. E o governo americano acaba de decidir tratá-lo como tal.
Em 6 de julho, a DEA publicou no Federal Register o aviso de que vai colocar o 7-hidroximitraginina — o 7-OH, derivado concentrado do kratom — na Lista I de substâncias controladas, a mesma da heroína. A ordem sai a partir de 5 de agosto e vale por dois anos, prorrogáveis por mais um.
Por que isso importa para quem trabalha duro
Esse produto é comprado sem receita por quem precisa aguentar o turno: obra, limpeza, restaurante, caminhão. A pessoa acha que está tomando um extrato de erva e está tomando um opioide com perfil farmacológico semelhante ao da morfina — sem bula, sem dose definida e sem nenhum ensaio clínico que tenha estabelecido o que é seguro.
Segundo a DEA, o potencial de abuso é comparável ao de opioides das Listas I e II, como heroína, morfina e fentanil. Os dados apontam tolerância, dependência, depressão respiratória e morte.
"O abuso da 7-hidroximitraginina apresenta riscos severos à saúde pública, incluindo tolerância, dependência e vício, depressão respiratória e morte", diz o documento da agência.
Os números
- O programa DEA TOX identificou o 7-OH em 85 casos de overdose desde 2019 — 55 fatais e 30 não fatais, com idade mediana de 36 anos.
- O sistema de eventos adversos da FDA registrou 66 casos em 2025 e 17 novos em 2026. Dos 86 casos no banco, 79 foram graves e 9 terminaram em morte.
- Centros de intoxicação registraram 165 exposições ao 7-OH entre janeiro e julho de 2025. Entre os casos que envolviam só a substância, 35% resultaram em problema de saúde grave e 67% precisaram de atendimento em unidade de saúde.
Os sintomas relatados incluem náusea e vômito, agitação, confusão, perda de consciência, convulsão, batimento acelerado, pressão alta e dificuldade para respirar. Em um dos casos citados pela DEA, um homem de 29 anos teve parada cardiorrespiratória revertida com naloxona — o antídoto de opioide. Um paciente de 38 anos precisou de internação com buprenorfina para tratar a abstinência.
A folha de kratom não é o alvo
A proibição mira o produto concentrado, não a planta. A regra atinge material botânico com mais de 0,050% de 7-OH em peso seco e produtos processados ou sintéticos — extratos, comestíveis, comprimidos prensados — com mais de 0,050% de 7-OH ou mais de 1 miligrama da substância.
"Não estamos mirando a folha de kratom nem o kratom moído. Estamos mirando um subproduto sintético concentrado que é um opioide", disse Marty Makary, comissário da FDA.
A agência já enviou sete cartas de advertência a empresas que vendiam esses produtos ilegalmente. Uma delas era de gomas cuja embalagem, alertou a FDA, pode atrair crianças. O órgão afirma que o 7-OH não é suplemento alimentar legal, não pode ser adicionado a alimento e não existe remédio aprovado que o contenha.
O que já vale no Colorado e em Washington
Nove estados — Alabama, Arkansas, Flórida, Indiana, Kentucky, Louisiana, Ohio, Vermont e Wisconsin — já proíbem o consumo de 7-OH. Arizona, Colorado, Carolina do Sul e Texas impõem limites de teor. O Colorado é ainda um dos 19 estados com uma lei de proteção ao consumidor de kratom. A regra federal vem por cima e não revoga leis estaduais mais duras.
Como se proteger
- Leia o rótulo. Procure por "7-OH", "7-hydroxymitragynine", "7-hidroximitraginina" ou por termos como extrato concentrado de kratom. Se estiver lá, é opioide.
- Desconfie do formato. Goma, shot, comprimido e filme sublingual são feitos para absorção rápida — é o desenho de uma droga, não de um chá.
- Dor crônica tem tratamento de verdade. Vale procurar clínica comunitária, que atende sem exigir status migratório, em vez de se automedicar no balcão.
- Quer opinar? O governo abriu consulta pública sobre o limite proposto, com prazo até 31 de julho, pelo site regulations.gov.
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