O telefone toca, a voz do outro lado parece ser a de um filho chorando e um homem assume a chamada: diz que sequestrou a pessoa e exige dinheiro imediato, sem desligar. O FBI alerta que esse tipo de golpe ganhou uma camada nova de engenho com a inteligência artificial, que hoje clona a voz de alguém a partir de poucos segundos de áudio retirados de vídeos publicados na internet.
O dado oficial veio no Relatório Anual de Crimes na Internet, divulgado pelo Internet Crime Complaint Center (IC3), do FBI, em 10 de abril de 2026. Pela primeira vez em quase 25 anos, o documento abriu uma seção dedicada a fraudes com IA: foram 22.364 queixas e cerca de US$ 893 milhões em prejuízo no ano de 2025. O total de perdas com crimes pela internet no país chegou a US$ 20,9 bilhões, alta de 26% sobre 2024.
Dentro desse universo, os chamados golpes de aflição — em que a IA imita a voz de um parente em apuros — somaram mais de US$ 5 milhões em perdas declaradas em 2025, segundo o FBI. A cifra individual costuma ser menor que a de fraudes de investimento, mas o impacto sobre a família é imediato e brutal: a vítima envia o dinheiro antes de perceber que tudo foi encenado.
Como o golpe funciona
A chamada chega de forma frenética e parece vir de uma pessoa querida. O criminoso afirma que o parente foi sequestrado, preso ou se envolveu em um acidente e precisa de ajuda financeira urgente. Para fabricar a voz, basta um trecho curto de áudio público. Pesquisadores citados pela Comissão Federal de Comércio (FTC) apontam que três segundos de fala podem ser suficientes para gerar uma imitação convincente.
O roteiro é sempre o mesmo: pressa, sigilo e isolamento. O golpista manda agir "agora", proíbe a vítima de desligar ou de ligar para outro parente e exige um pagamento difícil de rastrear — transferência bancária, criptomoeda, aplicativos como Venmo ou cartões-presente. A urgência é a arma, porque impede a pessoa de parar e checar a história.
Uma vítima ouvida pela imprensa, Deborah Del Mastro, recebeu uma ligação na qual um homem dizia ter sequestrado sua filha. Ela ouviu o que parecia ser a voz da filha implorando por socorro e enviou cerca de US$ 5 mil antes de descobrir que era fraude. O dinheiro nunca foi recuperado.
Por que imigrantes são alvo preferencial
O golpe da voz clonada é a versão tecnológica de uma fraude antiga, o "sequestro virtual", que o próprio FBI documenta há mais de uma década. E há um motivo para essa modalidade castigar comunidades de imigrantes: o histórico mostra que as quadrilhas miravam especialmente pessoas que falam espanhol e imigrantes indocumentados, porque a chance de a vítima procurar a polícia era baixa.
O FBI registra que muitas dessas famílias não denunciam por medo de que o contato com as autoridades exponha sua situação migratória e leve à deportação. Esse silêncio é exatamente o que o criminoso explora — quanto menor o risco de a vítima buscar ajuda, mais tempo o golpe se sustenta. Para a família brasileira nos EUA, isso significa um risco concreto que mistura dinheiro, pânico e a fragilidade do status imigratório.
A exposição na internet alimenta o problema. Vídeos de aniversário, áudios de WhatsApp reencaminhados, lives e até recados deixados em redes sociais viram matéria-prima para a clonagem. Quanto mais a voz de um parente circula publicamente, mais fácil fica reproduzi-la.
O que fazer para se proteger
As orientações de FTC, FBI e veículos como a CNN convergem em um ponto central: desconfiar da pressa e verificar por um canal que você já conhece, antes de enviar qualquer quantia.
- Combine uma palavra-código com a família. Escolha uma palavra ou frase secreta, que nunca tenha aparecido na internet e não seja adivinhável (evite nome de animal de estimação ou endereço). Se quem liga em pânico não souber a palavra, trate a chamada como golpe.
- Desligue e ligue de volta pelo número que você já tem. Entre em contato com o parente por outro meio — uma mensagem de texto, o telefone de outra pessoa ou o número salvo na sua agenda. Não confie no número que aparece na tela, porque ele pode ser falsificado.
- Recuse a urgência e o sigilo. Golpistas insistem para você não desligar e não consultar ninguém. Esse é o sinal de alerta. Pare, respire e cheque a história antes de agir.
- Nunca envie dinheiro por meios difíceis de rastrear. Transferência bancária, criptomoeda, cartões-presente e aplicativos de pagamento instantâneo são as formas preferidas dos criminosos justamente porque o valor raramente volta.
- Não passe dados sensíveis. Número de conta, Social Security e senhas não devem ser informados a quem ligou de surpresa.
Reduzir a pegada de áudio também ajuda. Restringir quem vê seus vídeos nas redes sociais e pensar duas vezes antes de tornar público um conteúdo com a voz dos filhos diminui o material disponível para a clonagem.
Onde denunciar
Mesmo quem tem receio do contato com autoridades pode registrar a queixa por canais que não pedem status migratório. A FTC recebe denúncias de fraude em ReportFraud.ftc.gov. O FBI orienta registrar o caso no Internet Crime Complaint Center, em ic3.gov, ou procurar o escritório local da corporação. Guardar números de telefone, horários e formas de pagamento exigidas ajuda a investigação e pode alertar outras famílias.
O golpe se apoia no susto. Saber de antemão que a voz pode ser falsa, ter uma palavra-código combinada e o reflexo de desligar e checar são as defesas mais eficazes contra uma fraude que cresce mais rápido do que qualquer outra categoria medida pelo FBI.
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