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Criando filhos entre duas culturas: muito além de ensinar dois idiomas
Artigo

Criando filhos entre duas culturas: muito além de ensinar dois idiomas

MM 22 de July de 2026, 15:41 41 visualizações

Criar uma criança entre duas culturas vai muito além de ensinar dois idiomas. É transmitir valores, memórias, tradições e formas de cuidar, enquanto se acolhe a cultura do país onde essa criança está crescendo. Neste artigo, compartilho minhas reflexões como mãe brasileira nos Estados Unidos e professora de português para crianças e adolescentes que vivem entre duas identidades culturais.

Quando me mudei para os Estados Unidos, sabia que precisaria aprender uma nova língua, adaptar-me a novos costumes e encontrar meu lugar em uma cultura diferente da minha. O que eu ainda não imaginava era que, alguns anos depois, essa experiência ganharia um significado muito mais profundo: eu teria uma filha e passaria a pensar não apenas em como eu viveria entre duas culturas, mas em como ajudaria outra pessoa a construir sua identidade entre elas.

Desde que a Mia nasceu, passei a perceber que a cultura não vive apenas na língua que falamos. Ela aparece nos pequenos hábitos da rotina, nas escolhas que fazemos sem pensar e nas maneiras que aprendemos a cuidar.

Foi a maternidade que me fez enxergar isso com mais clareza. O banho, por exemplo, sempre fez parte da minha ideia de cuidado. Cresci em uma cultura em que ele ocupa um lugar importante na rotina do bebê, não apenas pela higiene, mas também como um momento de carinho e conexão. Quando descobri que muitas famílias americanas têm uma rotina diferente, percebi que até os gestos mais simples carregam marcas da cultura em que fomos criados.

O mesmo aconteceu com a alimentação. Cresci em uma casa onde arroz, feijão, frutas e comida preparada em família tinham um significado que ia além da nutrição. Aqui, conheci novos hábitos e outras formas de conduzir as refeições. Em vez de tentar decidir qual modelo era o melhor, comecei a entender que poderia construir uma rotina que reunisse o que fazia sentido para a nossa família.

Quero que a Mia conheça os sabores que fizeram parte da minha infância, mas também descubra aqueles que farão parte da dela. Quero que cresça ouvindo cantigas brasileiras e músicas em inglês, que espere pelo Halloween e também conheça a alegria das festas juninas. Aos poucos, fui entendendo que preservar uma cultura não significa reproduzir exatamente a infância que tivemos, mas transmitir aquilo que realmente importa, permitindo que nossos filhos escrevam a própria história.

Essa reflexão também acompanha minha trajetória profissional. Como professora de português para crianças e adolescentes brasileiros que vivem nos Estados Unidos, tenho o privilégio de acompanhar famílias que desejam manter viva a conexão dos filhos com o Brasil. Ao longo dos anos, percebi que ensinar português nunca foi apenas ensinar vocabulário ou gramática. Cada palavra carrega histórias, memórias, músicas, afetos e uma forma de pertencer.

Vejo isso nas crianças que conversam com os avós em português, que cantam músicas aprendidas com a família ou que descobrem, por meio da língua, um pedaço da própria história. Hoje, vivendo essa experiência também como mãe, essas histórias ganharam um significado ainda maior. Já não observo a infância bicultural apenas como educadora. Agora, também a construo dentro da minha casa.

Ao mesmo tempo, não quero que a cultura americana seja algo distante para a Mia. Este é o país onde ela nasceu, fará amigos, viverá suas primeiras experiências e construirá tantas memórias importantes quanto aquelas que desejo preservar do Brasil. Meu desejo é que ela nunca sinta que precisa escolher entre um lugar e outro.

Às vezes me pergunto como ela enxergará sua própria identidade quando crescer. Será que se sentirá mais brasileira, mais americana ou um pouco das duas? Ainda não tenho essa resposta, porque identidade não é algo que os pais conseguem definir. Ela se constrói ao longo da vida, a partir das experiências, das relações e do sentimento de pertencimento.

Como educadora, acredito que esse talvez seja um dos maiores presentes que podemos oferecer às crianças: a liberdade de conhecer todas as partes da própria história. Crescer entre duas culturas pode ampliar a curiosidade, a capacidade de adaptação e o respeito por diferentes formas de viver. Quando uma criança percebe que existem maneiras diferentes de falar, celebrar, cuidar e demonstrar afeto, ela também aprende que diferenças não precisam ser motivo de divisão.

É por isso que quero que a Mia saiba que pode gostar de pão de queijo e de pancakes, celebrar a Festa Junina e o Halloween, conversar com os avós em português e brincar com os amigos em inglês. Não porque isso a fará "metade brasileira" e "metade americana", mas porque acredito que identidade não se constrói pela exclusão de uma parte da nossa história.

Como professora, aprendi que ensinar um idioma nunca foi apenas ensinar palavras. Como mãe, compreendo isso de uma forma ainda mais profunda. Quando ensino português para a Mia, não estou apenas apresentando uma nova língua. Estou oferecendo a ela uma forma de conversar com os avós, compreender as histórias da nossa família, rir de expressões que não existem em inglês e reconhecer que uma parte de quem ela é sempre terá um lugar para chamar de casa.

Meu maior desejo é que ela cresça sabendo que pode amar o Brasil e os Estados Unidos sem sentir que precisa escolher entre eles. Que carregue consigo duas línguas, duas culturas e muitas maneiras de enxergar o mundo.

Porque, no fim das contas, identidade não se divide. Ela se soma.


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Se você também está criando filhos longe do seu país de origem ou deseja fortalecer a conexão das crianças com a língua e a cultura brasileira, convido você a acompanhar meu trabalho no Instagram.

Compartilho reflexões sobre maternidade, educação parental, desenvolvimento infantil e também minha experiência como professora de português para crianças e adolescentes que crescem entre duas culturas.

📲 @marimarcotte

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